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Crônicas de Umbanda

Dama da Noite

Caros Irmãos.

 Este conto, como outros que virão, são fatos que realmente aconteceram. Os nomes descritos são fictícios, assim como os locais, obedecendo a lógica de   preserva-los, pois  o conto mesmo sendo real, e as pessoas descritas ainda viverem e residirem no mesmo local, não nos permite que  possamos expô - las ainda, porque há em muitos irmãos, infelizmente,  a descrença, a malícia, a pilhéria etc. etc. Bem , voltemos ao assunto que nos interessa:

A nossa crônica se passa no ano de 1956 (precisamente no mês em que se comemora a Folia de Reis), bem no interior do Estado do Rio,( cidade de Paraíba do Sul); cidade pequena, bem interiorana, onde todos se conhecem e se respeitam e se chamam por apelido : lugar cheio de paz e tranquilidade.

Bem, este fato aconteceu  com a família Conceição, que residia nos arredores, assim como também nos arredores moravam várias famílias. Era como um pequeno povoado afastado do centro da cidade, bem no interior, a cerca  de duas horas à cavalo em uma marcha normal, pois bem, este caso passou-se com esta primeira família que citei acima que era composta de oito membros: O sr. Sebastião, conhecido como  "velho Tião"; a sua esposa, Dna. Expedita, chamada de "dona Dita", excelente rezadeira, ( no interior ainda há, e o povo se socorre deles) mulher de muita labuta, junto com seu marido na lavoura e na criação de sua grande prole; sua irmã, Clementina, negra muito bonita e muito religiosa e, seus cinco filhos, todos menores. Francisco que contava seus 7 anos , Wantuil com 6, Jarbas 5, Léa e Maria com 3 anos (eram gémeas).

Vivia a família otimamente bem: eram pobres mais nada lhes faltava  Nada lhes tiravam o prazer de se divertir, de orar juntos, de  cantarolar na lavoura, ou nos finais de semana contando os "causos" ao lado da fogueira armada , onde todos se reuniam, não só da família, mas com os vizinhos e amigos, pondo os assuntos em dia, ou entabulando novos projetos e trabalhos, com algumas exceções, eram quase  uma comunidade. Felizes dias... mas o pior estava por vir: Certa tarde, dona "Dita" chegou da roça, e como era natural encontrar seus cinco filhos brincando no terreiro, ou em volta da grande Jaqueira na qual seu "Tião" havia construído um balanço para os pequenos se divertirem; deles só encontrou os quatro menores , mas não como sempre os encontrava, havia algo diferente: eles estavam meio tristes, bem estranhos. Prontamente dona "Dita" os interrogou perguntando o que havia acontecido (era como se ela tivesse um olho clínico, e previsse um  problema por vir), de pronto quase como um coro os pequenos responderam: Mãe o Chiquinho tava brincando com a gente e de repente dormiu, a tia Clementina levou ele pra dentro e, ate agora ele não acordou para acabar de brincar ( mesmo na ingenuidade deles , dona "Dita" notou que alguma coisa estava errado, não sabia exatamente o que era, mais sentia, e sendo ela rezadeira das "fortes" tinha essa sensibilidade), de imediato correu para dentro da casa , atravessou a sala, e adentrou no quarto, deparando com sua irmã Clementina em frente a imagem de N. Senhora da Conceição e, junto dela na caminha ao lado jazia inerte Chiquinho. Clementina orava com um terço entre as mãos como se o quisesse esmagá-lo, tamanho desespero de ver seu sobrinho naquele estado sem poder ajudá-lo a não ser rezando , orando, pedindo e suplicando. Vendo este quadro, dona "Dita" sem perder a calma e tempo, se inteirou com sua irmã do acontecido e, foi correndo para chamar seu marido "Tião" que ainda estava na lida, cuidando de umas cercas que tinham sido destruídas.

Ao chegar em casa junto com dona "Dita", seu "Tião" sem perda de tempo chamou  seu vizinho de nome Olegario, compadre, muito prestativo, e  pediu-lhe que corresse até a cidade e chamasse o "DOTÔ" para ver o Chiquinho (e, no interior é assim mesmo, uns ajudando aos outros, pois seu "Tião" há anos atrás tinha se machucado na coluna e não podia mais montar). Olegário prontamente selou a bonita égua marrom, que é de muita estima para todos , pois, é com ela que aram os campos para o plantio, e disparou em  direção ao vilarejo próximo; não é preciso falar o clima que ficou dentro daquela humilde casa com todos em volta do menino, sem saber o que fazer. Clementina à orar e suplicar a santa o restabelecimento do sobrinho; dona "Dita" em um canto a pronunciar palavras estranhas em um ritual de que só ela era sabedora, mas, que não trazia resultados, seu "Tião" imóvel, parado, olhando para o filho esperando que a qualquer momento ele abrisse os olhos e sorrisse para ele, mas qual nada, sua tez que era negra, já estava de uma cor azul - esbranquiçada, quase um branco arroxeado; as crianças embora continuassem a brincar já demonstravam em sua ingenuidade que alguma coisa era anormal a rotina tranquila e divertida deles.

As horas foram se passando lentamente, assim como se passsam as horas no interior, só com o agravante de que havia algo  no ar , o que fazia com que mais lento se fizesse o tempo, até que a dado momento ouviram-se o  tropel de cavalos e, ao correrem para fora, depararam com Olegário e, em outro cavalo, o "DOTÔ" Paulo( médico já de certa idade, mais com muita credibilidade junto aos moradores do local), o  qual seu "Tião" havia pedido para chamar. o que de certa maneira foi uma felicidade, pois, no interior, naquela época, um médico para toda uma população, tão carente como hoje, era muito requisitado, e  óbvio se torna  difícil encontrá-lo, o que trouxe uma certa tranquilidade aquela família, pois, já que o médico havia chegado, logo- logo o pequeno Chiquinho estaria novamente a brincar junto com seus irmão. O médico adentrou a casa e,  no humilde quarto reservado aos pequenos,  se pôs a olhar a cena por uns momentos sem no pequeno tocar: durou uma fração de segundos e logo após o médico passou a examiná-lo e a auscultá-lo, já com uma enorme apreensão dos familiares. Passaram-se alguns minutos e  o doutor levantou-se, chamou seu "Tião" e dona "Dita" e falou o que eles nunca gostariam de ouvir: "- O pequeno faleceu...aceitem meus sentimentos, mais infelizmente não pude fazer nada, o óbito se deu talvez há umas 3 horas atrás". Dona "Dita" no momento parecia a mais serena e fria,( talvez por já atuar com rezas, enfim na parte espiritual), tomou a frente do marido e perguntou ao médico:- "DOTÔ" o que foi que fez com que meu Chiquinho fosse embora ? - O que "DOTÔ"?. Doutor Paulo, muito calmamente, pois já acostumado com os quadros da vida lhe respondeu:" - Dona Expedita, o que vitimou seu pequeno filho foi algum distúrbio do coração, talvez algum defeito congênito que ele tivesse, e com o crescimento se pronunciou, o que com mais certeza só com a necropsia será certamente dado o resultado".O que de pronto houve uma recusa geral, seu "Tião" se pronunciou: " - Foi Deus que assim quis, e ninguém vai mais examinar o Chiqunho, tenho dito." E o" tenho dito" do senhor "Tião" já era a sentença de que ninguém ousaria contrariá-lo.

O médico se despediu e partiu, ficou só a família desolada, não entendendo o porque desse tão terrível pesadelo que se abateu sobre eles. Bem, chegaram os amigos;  foram chamados os parentes, e se foi preparando a casa para o ato fúnebre. Manhã clareando. Os presentes com o olhar languido pelo sono faziam o "quarto" para o pequeno defunto, inocente vítima que foi ceifada no despertar da juventude aos 7 anos de idade. A sala se fazia enfeitada com flores: no canto havia uma mesa simples com alguns pratos de broa de milho; café forte; mandioca cozida; torresmos e um prato de linguiça de porco e, bem ao lado quase para não ser vista, um garrafão de aguardente( pois no interior  esse  meio de velar os mortos é normal). No centro da humilde sala, em cima de outra pequena mesa, estava o pequeno ataúde branco e no seu interior estava o corpo de Chiquinho, coberto com muitas Damas  da Noite. O ambiente era triste, só não tão  triste porque o povo  do interior, pelas agruras da vida, da labuta e pela própria razão de estar "isolado do mundo",  se tornam mais frios, não que com isto  não tenham sentimentos, mais parecem que são mais realistas perante a vida do que nós.

A manhã estava avançando, a casa  encheu-se de pessoas: uns amigos, outros parentes e alguns curiosos; pois mesmo no interior, existe uma curiosidade mórbida quando se trata da morte.As horas iam se passando, num dado momento ouviu-se o bumbar abafado de tambor, e o tilintar de um instrumento agudo, junto com vozes e cantorias: era uma Folia de Reis, que se aproximava. Seu "Tião resmungou no canto: " - Mas isso lá é hora dessa cantoria na minha casa? Dona  "Dita" retrucou:" - A dor é nossa, além do mais, como eles iam saber do nosso caso." E a Folia de Reis foi se aproximando, aproximando, até chegar na porta da casa de seu "Tião" No terreiro da casa tinha tanta gente paramentadas, cantorias, batidas de tambor, etc, etc, que os presentes no enterro não sabiam se velavam o corpo ou se saiam  para saudar a Folia( pois é um folclore muito bonito e, muito respeitado também por haver motivos religiosos) O mestre de cerimônias chamou na porta da casa pelo dono, pois se usa chamar todos da folia para entrar e dar comes e bebes, faz parte da tradição. Mas, por razões óbvias este ato não ia ser possível; seu "Tião," homem de que a vida muito exigiu e por isto era um pouco rude, retrucou em chegar a porta, no que tanto dona "Dita", como dona Clementina lhe pediram que fosse, que fizesse isto, e tanto pediram que seu "Tião" foi, e lá chegando deparou com o chefe de cerimônia da Folia, e qual foi o seu espanto! Este chefe de folia era um antigo vizinho, que por questões de terras se tornaram inimigos ferozes, problema feito: seu "Tião" de pronto deu meia volta e retornou para o velório resmungando, foi quando dona "Dita" e sua irmã Clementina correram logo para tentar sanar esta situação: saudaram a todos, e explicaram que infelizmente não poderiam abrigar aos componentes da Folia, pois naquele momento estava se realizando o velório do menino mais velho da casa, e todos estavam muito amargurados com isso, pois aconteceu de repente e ainda não tinham se refeito.  Desculparam-se e disseram que iam pedir a outras pessoas que  dessem comida e bebida a todos e,  antes que pudessem adentrar a sala,  repentinamente o mestre de cerimônias que comandava a Folia de Reis, chama por dona "Dita" e lhe diz:"- Minha senhora, o que eu tenho a dizer é uma coisa que fará a todos ficarem muito contentes, mas para isso eu tenho que entrar em vossa casa e ver o pequeno em seu caixão". Todos ficaram muito espantados, não só por não ser uma coisa normal, mas também por saberem que seu "Tião" e mestre Dequinho,( este era o nome do mestre) não se davam. Foi um tremendo sufoco convencerem seu "Tião" a deixar mestre Dequinho entrar em sua casa, especialmente no velório do seu filho mais velho. Conversa vai, conversa vem, e por muito custo foi permitido que ele entrasse, mas com uma ressalva: que só ele viesse. Enfim, de acordo, mestre Dequinho se achegou perto do caixão de Chiquinho e começou a rezar. O tempo havia se passado e todos estavam nervosos, e  se com isto fosse atrasado o enterro? Bem, mestre Dequinho rezava, e de vez outra dava sete voltas em torno do caixão. Em dado momento pediu a dona "Dita" que lhe arranjasse 7 folhas de Fumo, 7 folhas de Comigo -ninguém - pode, sete punhados de palha de Alho e 7 espadas de São Jorge, ato contínuo mandou chamar a todos os parentes e disse:" - Meus irmãos, este irmãozinho que aqui está, não está morto e sim dormindo, meu Pai permitiu que eu como sua ferramenta de trabalho, pudesse tirar esse irmão desse sono, pois para ele o sono eterno não chegou". E disse" - Ele vai acordar daqui a pouco, e você dona "Dita" e tu "Tião" terão a obrigação de durante sete anos, a contar do ano que vem a fazer o trabalho que eu vou mandar!". Dequinho parecia estar incorporado, não era a mesma pessoa(não me foi possível saber o que foi falado entre os três)." -  Não pode falhar nem uma vez, pois pode ser fatal para o menino". Terminou de fazer o trabalho, olhou para o Chiquinho e, o chamou 7 vezes, na última o menino abriu os olhos: a cor de seu corpo retomou e ele sentou-se no caixão, olhando para todos muito assustado e sem entender nada. Foi um espanto geral e uma correria total, ficaram na sala do velório pouquíssimas pessoas, incluindo os da família. Dona "Dita" correu para o menino que a essa altura já estava chorando, e abraçando-o o trouxe  junto ao peito em uma mistura de choro e risos e falou:" - Meu filho...Meu filho.. Obrigado meu Pai por este estado de graça! ".. Aos poucos tudo foi voltando ao normal, o mestre da Folia de Reis, seu Dequinho se retirou, e lá  foi a Folia embora, cumprindo o seu outro papel. Dentro da casa ainda se encontravam todos meio atordoados com tudo o que tinha acontecido, quando o Pseudo-Defunto Chiquinho, virou para todos e disse: " - Ei vocês aí; não dá para me arranjar um prato de mingau de Milho, pôxa eu tô morrendo de fome!" Os que  ainda restavam na sala morreram de rir.

Amigos, há uns 6 meses tive o prazer de ser apresentado a esse Francisco, por suas duas irmãs, ainda vivas. Ele conta hoje com 51 anos, é um negro forte de 1.85m. de altura, calmo muito tranquilo, aquele que tem boca e não fala, e eu lhe perguntei o que  achava disso tudo que tinha acontecido com ele,  respondeu:" -  Não me lembro de nada, o que eu sei foi me dito pela falecida minha mãe, quando eu tinha 21 anos, que foi o prazo que mestre Dequinho disse para falarem para mim, o resto é o seguinte, eu não sei porque, mais não posso de jeito nenhum sentir o cheiro daquela flor....", ao que  virou para suas irmãs e perguntou: como era mesmo o nome daquela flor... aquela flor! E elas rapidamente responderam em uníssono: " "DAMA DA NOITE"

fim.

André.